Publicado em Lugares para jamais visitar, Lendari® Entertainment (2023)
De onde veio a ideia?
Então, essa aqui veio durante as pesquisas para ideias de lugares para basear o conto que sairia na primeira edição do Lugares para Jamais Visitar. Sempre fui fascinado pela ilha das bonecas de Xochimilco. Algo naquele cenário, tão desolador e triste, composto por por coisas que deveriam representar objetos de felicidade, sempre chamou bastante minha atenção. Tendo o lugar, e tomando por base algumas lendas que circulam em torno da ilha, foi só uma questão de tempo para trabalhar a ideia.
O que inspirou a trama?
Gaby, minha parceira. Na época, quando apresentei a ideia original para ela, ela trouxe uma provocação. Porque, no começo, a história basicamente era uma recontagem do mito de La Llorona, uma figura recorrente do folclore da América espanhola. Para quem não conhece, ela é uma personagem que, ao ser abandonada pelo marido/parceiro/namorado com um filho, termina afogando o rebento em um ato de vingança. A culpa, no entanto, termina sendo demais para ele e, assim, ela termina também colocando um fim na própria vida.
E é mais ou menos nesse ponto que chega a intervenção de Gaby.
Aqui, ela apontou o fato de porque repetir a história. Não só isso, levantou um questionamento bem importante: afinal, La Llorona é abandonada, mas a punição e crítica caí apenas sobre ela, e não naquele que a abandonou, e isso aqui foi um verdadeiro ponto de virada.
Veja bem, muito dos mitos e lendas que constituem o corpo cultural de cada povo são carregados pelas crenças e valores éticos e morais da sociedade em que essas histórias se desenvolvem, atuando não só como instrumentos de aviso, ou de cuidada, mas, muitas vezes, como instrumentos de repressão.
Assim, juntando isso com a ideia das bonecas descartadas – mais uma vez puxando o motivo do abandono, e com um elemento geralmente associado ao público infantil e feminino – ao lado de leituras como A Prateleira do Amor, da Valeska Zanello, que discute bastante a questão da performance relacional pelas quais as mulheres passam, assim como a questão do “descarte”, foi uma questão de tempo até encontrar a forma da história.
Qual o processo de construção?
Então, tenho que admitir que meu processo é bastante caótico, então varia bastante de história para história.
No geral, tento primeiro ter a ideia da história bem clara. Uma vez que já tenho ela definida, vou fazendo os primeiros rascunhos para definir os rumos que a narrativa precisa seguir. É mais ou menos nesse ponto que começo a pensar também no tom e no formato que o conto deve possuir.
No caso de “As Moradoras de Xochimilco”, em particular, lembro que minha principal preocupação foi trabalhar o tema do abandono. Assim, tentei criar um ambiente que refletisse não só a estranheza da ilha, como também a desolação e o tema da história que queria contar, tanto por meio do espírito que habita o lugar, como também nas próprias bonecas.
Para isso, fiz de uma das bonecas a narradora da história de modo que, ao mesmo tempo que vai nos contando sobre o momento presente, vai sempre trazendo o passado de volta. Assim, podemos dizer que a nossa narradora se encontra presa tanto no presente, visto que está amarrada em uma das árvores, como também presa nas memórias de um passado que nunca se deixa esquecer, refletindo, assim, não só seu abandono, mas também a própria ideia de um fantasma – uma criatura presa entre dois tempos, que não consegue nem seguir em frente, nem deixar de voltar para o que já foi.
Tendo decidido isso, foi só uma questão de ir afinando os rascunhos para achar o tom de desalento que acompanha a história.
Deixe um comentário