Todos seremos algum tipo de cyberspace jockeys

Nos últimos tempos me vi obrigada a entender mais dos processos das inteligências artificiais, por causa do trabalho. A busca inicial foi uma caça às bruxas-ciborgues. Mas, quanto mais ouvia pessoas de outras áreas, que tem uma vivência bem diferente, mais me sentia correndo por um campo com um garfo na mão e gritando matem a fera! Será que estamos criando uma cegueira monocromática onde poderíamos ver possibilidades fascinantes de cores?

O cerne da questão é: o problema está na IA ou na pessoa que manipula a IA? Porque a inteligência artificial é uma ferramenta, não uma existência de fato inteligente. O uso que é feito dela é escolha de um ser humano. Não poderíamos usá-la pro bem mesmo dentro de trabalhos que envolvem arte e criatividade? Afinal, uma chave de fenda é uma ferramenta incrível pra construir um móvel, mas péssima pra usar numa cirurgia cerebral. Em vez de odiar IAs com todas as nossas forças, não seria melhor focar essa energia em descobrir quais são as cirurgias cerebrais das nossas áreas criativas?

Ao que tudo indica, a inteligência artificial estilo chatGPT e afins veio pra ficar. Talvez perca a graça daqui algum tempo, mas continuará lá. Se ainda vai ser alimentada ou não, minha bola de cristal não foi tão longe. O que eu quero dizer é: ela existe agora com força o suficiente pra nos obrigar a olhar de frente. Não seria mais sábio entender como ela pode entrar no nosso mundo de forma positiva e moldar nossas barreiras pra aceitar esses encaixes, ao invés de tentar construir um forte que nos isolará da realidade?

Porque é isso: a realidade é que a inteligência artifical está aí e está sendo usada na literatura. Então nós, os anciãos que viram a era pré-internet e escreviam com gravetos em subprodutos de árvores, não deveríamos tentar pegar na mão dos iniciados nas artes literárias e tentar moldar um mundo em que velho e novo se mesclam pra criar, em vez de destruir?

Posso estar delirando sobre uma utopia que subverte o cyberpunk em uma revolução das máquinas com roteiro de Hanna-Barbera? Posso. Mas, até o momento dessa publicação, estou do lado do equilíbrio. A negação não se aplica mais e a aceitação absoluta é imprudente. Talvez o futuro seja um despertar da Matrix com mais risadas e tempo livre e menos cabos e líquidos estranhos em partes mais estranhas ainda, e isso vai depender das nossas escolhas enquanto ainda temos tempo.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 15/12/25