Ratos conta a história de Shelley, uma adolescente que vive com a mãe em uma casa afastada, depois de anos sofrendo bullying na escola. As duas acabam se isolando cada vez mais do mundo e passam a viver praticamente escondidas, evitando pessoas, conflitos e qualquer situação que possa colocá-las em evidência.
É daí que vem o título: elas se sentem como ratos. Pequenas, acuadas, sempre escondidas e tentando sobreviver sem chamar atenção.
Só que essa sensação de segurança desaparece quando, certa noite, um ladrão drogado invade a casa delas. E é aí que a história começa a mudar de verdade.
Diante do assalto, Shelley reage. E eu gostei muito desse momento porque, pela primeira vez, ela deixa de simplesmente aceitar o lugar de alguém indefesa e mostra que também é capaz de agir quando se sente ameaçada.
Mas isso não significa que o medo desapareça. Muito pelo contrário. Depois daquele episódio, a paranoia e a sensação de que elas nunca estão realmente seguras começam a crescer, e Shelley passa a enxergar ameaças em todos os lugares.
Qualquer barulho, qualquer movimento do lado de fora, qualquer pessoa que se aproxime demais da casa pode ser uma ameaça. A sensação de segurança que elas tinham, por mais frágil que já fosse, desaparece completamente.
E acho interessante que, nesse momento, a própria casa, que deveria ser o lugar onde elas estão protegidas do mundo, passe a ser também um lugar de tensão. Shelley está sempre esperando que alguma coisa aconteça.
Ela começa a pensar em como poderia se proteger caso alguém invadisse novamente a casa, em como identificar possíveis ameaças e em todas as coisas que poderiam dar errado. Quanto mais tenta se preparar para o perigo, mais parece presa dentro dele.
E a história vai se desenrolando com uma série de acontecimentos que deixam Shelley e a mãe cada vez mais acuadas dentro da própria casa, enquanto aquela sensação de que elas precisam se esconder para sobreviver fica cada vez mais presente.
Eu achei a Shelley uma personagem muito curiosa porque, normalmente, eu provavelmente acharia uma protagonista assim uma “zé coitada”. Mas, nesse caso, ela realmente é uma vítima. Ela tem motivos para se sentir assim. E justamente por isso gostei de acompanhar os momentos em que ela reage, principalmente porque isso não faz com que ela deixe de sentir medo.
Claro, o livro deixa algumas pontas soltas, e o final foi um tanto quanto decepcionante para mim. Não achei ruim, exatamente. Foi mais... normal. Depois de tudo que a história constrói, eu esperava talvez um pouco mais.
Mas, no geral, eu gostei bastante. O começo achei um pouco enrolado, mas, depois que a história engrena, ela realmente prende, e eu fiquei muito curiosa para descobrir até onde aquilo tudo iria.
É uma leitura que mistura bullying, violência, medo e sobrevivência de um jeito bem desconfortável, e talvez seja justamente esse desconforto que faça Ratos funcionar tão bem.
Nota: ⭐⭐⭐⭐

