Em Fantasia, bibidi-bobidi-boo e abracadabra sustentam a teoria do tudo é possível
Quando embarcamos em uma história, a melhor coisa que podemos fazer é ativar a suspensão da descrença* — coisa que as crianças fazem como recurso nativo do sistema operacional fabuloso que vem de fábrica e que vamos estragando com o tempo.
É justamente nessa imersão no fantástico que orbita um medo infundado dos adultos: e se a criança se perder em ilusões e não souber mais o limite entre real e imaginário? Posso tranquilizar as mentes inquietas garantindo que isso não é um risco. A criança sabe onde está esse limite e não vai cruzar de maneira nociva — se o seu papel como adulto mentor tiver sido realizado adequadamente.
Viver aventuras mágicas ou se arriscar por mundos sombrios são possibilidades, das infinitas, que a literatura oferece. Experenciar de maneira segura outras vidas é a busca que nos motiva a mergulhar em histórias pela vida toda. Então por que privar as crianças dessa experiência? Como guias de um ser humano em formação, podemos proporcionar tantos portais pra Fantasia quanto o coração dos pequenos desejar. Assim como podemos envenenar os caminhos e salgar a terra do imaginário pra sempre.
Não existe uma história fantasiosa demais pra uma criança. A magia que ela encontra nos livros enquanto se descobre como indivíduo se manterá como um dos pontos cardeais da rosa dos ventos que a guiará pelo resto da vida. Não vai se transformar em um santo graal da dissociação da realidade, mas vai garantir um lugar seguro pra descansar um pouco quando as agruras do mundo se tornarem pesadas demais.
*Esse superpoder tem outro nome muito mais legal: faz de conta.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 09/03/26

