Um viva ao macaquinho que bate os pratos!

Se você escreve, já ouviu que tudo é fonte de inspiração — filmes, séries, livros, revistas, bula de remédio — e que é parte do seu trabalho ser um grande filtro de todos os estímulos que chegam pra transformar em escrita. Não posso negar que isso tem lá sua cota de verdade, mas está longe de ser um princípio de vida (pelo menos um saudável).

É inegável que até conversas de pessoas desconhecidas, ouvidas sem querer querendo, podem servir pra criar narrativas incríveis ou pra dar a solução que você precisava praquele entrave na história ou pra te mover do temido bloqueio criativo (voltaremos a esse tópico algum dia). Mas entrar na paranoia de que cada segundo da existência precisa ser usado ativamente pra encontrar inspiração é loucura. Até aqui, acredito que não trouxe nenhuma grande revelação, considerando todas as discussões não-tão-modernas sobre excesso de trabalho e cobrança por produtividade 24/7 (isso significa 24 horas, 7 dias por semana — deixo aqui essa informação porque não faz muito tempo que ela me foi revelada).

O que eu quero trazer com toda essa introdução sobre produção de trabalho incessante é uma descoberta científica que pra ciência não é tão nova assim, mas pra mim foi como se Jesus cientista tivesse descido dos céus com seu jaleco sudarizado ao som de pequenos béqueres batendo e me revelado o segredo da salvação dos meus neurônios que morrem por causa dos meus pecados laborais. NÓS PRECISAMOS DE TEMPO OCIOSO DE VERDADE DO TIPO NO ESCURO OLHANDO PRO TETO EM SILÊNCIO E DEIXANDO O MACACO BATER OS PRATOS DENTRO DA NOSSA CAIXA CRANIANA. Agora leia isso de novo como se fossem anjos cantando e deixe o milagre operar em você.

Vou te explicar o motivo por trás de tão ousada afirmação. Nosso cérebro, esse fabuloso amontoado de massa cinzenta com capacidade criativa ilimitada, tem um super poder fascinante (e destruidor): ele consegue transformar os estímulos que recebe através dos livros ou da TV em reações reais do nosso corpo. Então se você está lendo ou assistindo, mesmo que seja no seu momento de descanso no meio de cobertas macias e quentinhas e com um chá de camomila esfriando ao lado, o seu cérebro está vivendo tudo aquilo que a história está narrando (e aqui está a explicação das paixões que podemos sentir por personagens de mentirinha — a história não é real, mas pro cérebro, a paixão é, sim). E como não é só de amores que uma história é feita, pense em todos os estímulos que só meia horinha de leitura ou TV pode trazer.

As músicas e podcasts também se inserem no grupo de materiais que o cérebro transforma em vivências físicas. Por isso é tão importante reservar momentos de silêncio e escuridão pra deixar as coisas decantarem dentro de você. E isso também é muito importante se você trabalha criando. Porque um cérebro super estimulado o tempo todo não vai durar muito até um colapso — mesmo antes de chegar no apocalipse neuronal, as ideias vão começar a ficar confusas e falhar e a sua criação vai virar uma merda. Esqueça aquela ideia da pessoa artista sofredora trancada em um sótão sujo e mal iluminado enquanto morre de tuberculose e transtorno do uso de álcool. Isso é tão démodé. Se dê a oportunidade de criar de forma alegre e saudável e transforme o processo em recompensa, não em provação. Comece destinando um tempo do dia pra não pensar.

Sabe quando você diz “nossa, eu não fiz nada hoje, só li/vi TV e estou um bagaço”? Agora pense em quantas batalhas épicas você lutou, quantos dramas amorosos enfrentou, quantas cidades salvou (ou condenou), quantos monstros derrotou com o poder da música… É tempo de aceitar o macaquinho com os pratos. Existe um momento pra tudo, não me entenda mal. Jamais desestimularia alguém de ler ou ver TV (até porque esse é o meu trabalho, por favor leiam meus livros e assistam meus roteiros — a parte do roteiro eu estou jogando pro universo). Mas também tire seu tempo de silêncio e contemplação. Seus neurônios agradecem.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 14/12/25