A suspensão da descrença nada mais é do que o faz de conta dos adultos que insistem em se diminuir quando crescem
O melhor tipo de pessoa leitora que existe é, na verdade, uma pessoinha leitora. E aqui eu quero dizer apenas em tamanho de superfície corporal porque, no resto, as crianças são muito mais amplas do que quem já cresceu e adentrou aquele território cinzento da adultice.
Existe uma definição muito curiosa que é a literatura infantil. Costuma-se usar esse termo com uma entonação de voz engraçadinha e apertando as bochechas de quem escreve pra crianças. Que fofinho um livrinho com historinhas pra criancinhas. Eu nem acredito que isso seja feito por mal, porque as pessoas (pelo menos a maioria delas) não entendem que as narrativas voltadas ao público infantil são tão densas (se não mais!) do que as voltadas ao público adulto. É tudo literatura, afinal.
Vamos separar o conteúdo e a construção narrativa feitas pra determinadas faixas etárias, que levam em consideração temas e estruturas que sejam interessantes praquela fase da vida, de uma definição taxativa de literatura infantil como se fosse um setor que orbita as margens da literatura séria. O que usamos pra escrever pra crianças não são fórmulas que ensinam o certo e o errado ou coisas bobinhas pra deixá-las ocupadas por um tempo sem incomodar o atarefado mundo adulto — ou pelo menos não deveriam ser. Esses são aqueles livros que afastam da leitura as pequenas mentes em formação porque não agregam peças ao grande quebra-cabeças do desenvolvimento do ser como indivíduo. A literatura tem esse papel incrível e nós, como pessoas escritoras, devemos nos posicionar e advogar em favor de não menosprezar o potencial ilimitado de uma criança explorando o universo das palavras — inclusive entre nossos pares.
Uma criança com o nariz enfiado por horas no seu livro é a validação mais importante que você vai receber na vida toda, como pessoa autora. As crianças não tem filtros externos impostos socialmente que fazem com que determinada história seja boa por critérios subjetivos que alguém estipulou pra montar a cartilha da boa literatura. Elas vão gostar só porque é bom. E, pelo menos pra mim, esse é o grande objetivo dourado da carreira de escritora: criar histórias boas. Se forem incríveis, melhor ainda. Apenas as horas-nariz que pequenas leitoras e leitores passarão nos meus livros poderão dizer.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 17/12/25

