O medo na literatura como possibilidade de enfrentamento das mudanças


O mundo é um lugar assustador pra quem está aprendendo a existir, e a literatura pode ser uma grande aliada na jornada da infância. As histórias apresentam possibilidades infinitas pra uma abstração guiada da realidade, quando essa se torna sufocante demais. O lugar seguro que se encontra à distância de um livro é um alívio momentâneo pra claustrofobia existencial que “crescer” pode causar. [uso crescer com aspas pra evitar o mito de que crianças são inferiores em qualquer sentido — elas não sabem menos, elas sabem diferente]

A literatura de horror se mostra uma habilidosa domadora de angústias, ressignificando medos reais de uma maneira mais acessível ao processamente da imaginação lúdica infantil. Ela permite que as emoções sejam espelhadas em realidades diferentes e vivenciadas através do outro, pela jornada de personagens que funcionam, ao mesmo tempo, como avatares adentrando o desconhecido e como guias na exploração consciente das possibilidades.

Além da miríade emocional que forma o desenvolver de uma criança, existe um ponto muito mais basal que histórias de horror atingem: o sentir medo. Afinal, sentir medo em segurança é uma experiência deliciosa. Poder se aventurar em lugares assustadores de dentro do forte de cobertas e travesseiros da própria cama é um exercício que nos acompanha pela vida toda. E poder abandonar o medo com o fechar do livro é o que torna essa aventura irresistível.

Como mediadores entre os pequenos e Fantasia, precisamos deixar as portas abertas pra que a escolha dos caminhos seja feita por eles. Não podemos obliterar passagens por julgamentos preconcebidos do que é adequado ou não. Adequação é uma régua preguiçosa usada pra negligenciar o potencial infinito da psique infantil. Deixemos que as mentes em formação conheçam o infinito como ponto de aterrissagem. O futuro precisa disso pra existir.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 16/03/26