Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades
Um livro pra um leitor. Essa é a equação básica quando pensamos na dinâmica da leitura. E agora eu entro com o “maaaas” — mas essa equação tem um fator a mais quando pensamos em livros pra crianças. E por livros pra crianças eu me refiro a livros que serão lidos por ou para crianças, e não aquela baboseira classificatória de literatura infantil (tem vários artigos por aqui sobre isso).
No cenário geral, a maioria das crianças não compra ou empresta os próprios livros em transações totalmente independentes. Existe a figura do mediador — que vai representar um papel fundamental de ligação entre escritores e pequenos leitores. E aqui a responsabilidade de quem desempenha essa função é gigantesca — o poder de obliterar as portas pra Fantasia.
Depois que o livro se encontra nas mãozinhas ansiosas por uma história incrível, o mediador ainda tem uma participação imprescindível no desenvolver da ligação da criança com a narrativa — se apresentar como elo, e não como censor. Pequenos leitores são leitores com os mais variados interesses, e livros (mesmo os que estão etiquetados como “pra crianças”) abordam os mais variados temas.
E é assim que deveria ser: livros sem didatismos assépticos e com possibilidades infinitas de reflexões, caso a criança esteja em um momento pra reflexões. Isso tudo dentro da massa mágica que é uma história encantadora — se perdemos a magia da contação de histórias, perdemos nossos pequenos leitores. Porque, no fim das contas, o que importa mesmo é a viagem pra um mundo em que tudo é possível. A abstração do faz de conta que permite viver vidas infinitas na segurança da sua própria.
Se quem está fazendo a mediação da leitura, seja como leitor ativo contando a história ou como ponto de apoio pra consultas de temas que precisam de abrangência de interpretação, não está preparado pra toda a responsabilidade que essa posição traz, só existe uma opção: melhorar. É inaceitável ceifar a curiosidade e o acesso a temas que fazem parte da construção de ser humano por preconceitos, desinformações ou qualquer delírio coletivo que esteja na moda.
Os livros trazem distração do mundo real quando é necessário, e também oferecem guarnições pra sobreviver nesse mesmo mundo quando a fuga não é uma opção. A criança precisa que tudo isso esteja à disposição no momento em que as páginas se abrem e pra todo o sempre depois disso. É nossa responsabilidade intermediar o que acontece em Fantasia e o que se reflete no mundo infantil em construção. E responsabilidade é muito diferente de censura.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 02/03/26

