A delícia do consumo de alisantes cerebrais

Demorei algum tempo até entender o tipo de literatura que eu queria escrever. Me debati em lugares em que não cabia porque ali é onde a literatura séria é feita. E então percebi que escrevo literatura risonha.

Não vejo problemas em narrativas cabeçudas que são como uma cebola ou um ogro, cheias de camadas. Meu desconforto está no pedestal de babaquice em que isso é colocado. Como se ler ou escrever esse tipo de texto se tornasse uma atividade acima dos meros mortais com seus livrinhos bobos. Seja feliz com a sua literatura, não arrogante.

Ataques lançados, vamos ao que importa. A literatura de entretenimento (esse termo existe mesmo, não foi um danielismo) costuma ser tratada como o primo-gente-boa-que-não-passou-no-concurso-na-festa-de-família — as pessoas gostam, mas tem outros primos muito mais bem-sucedidos. E isso é um erro terrível (tanto com os primos quanto com os livros). Os objetivos são diferentes, então o senso de julgamento de melhor ou pior é impossível de ser aplicado.

E, agora, a frase que trará libertação a milhares de pessoas leitoras: você pode consumir literatura séria E literatura risonha. Sinta as amarras literárias sendo afrouxadas e o ar repleto de palavras difíceis e bobas* enchendo seus pulmões ficcionais enquanto o mundo de tinta ganha novas cores e nuances que você nunca tinha se permitido imaginar.

[*não uso bobas como demérito, apenas como representação descritiva dotada de grande alcance interpretativo]

Use a literatura como distração. Viaje por mundos malucos, conheça personagens excêntricos, embarque em aventuras duvidosas. Precisamos acabar com o mito de que o divertido é um assassino de neurônios. Se divertir é uma necessidade basal da existência humana. Ou você acha que as pinturas rupestres foram feitas só pra fins proto-científicos?

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 03/01/26