O livro como objeto de arte é um movimento em que o próprio livro é transformado, como fica bem claro na determinação, em objeto de arte — onde a leitura deixa de ser a principal experiência e divide o palco com experimentações conceituais e visuais. Mas não é desse tipo de livro que eu vou falar hoje.
Estava na sala de outrem e me demorei na estante de livros. Vocês já repararam como é muito comum que as estantes de livros sejam o principal item decorativo das casas? E aqui eu estou realmente falando sobre decoração e não fazendo uma análise crítica do hábito de leitura das pessoas. Pois saibam que esse fenômeno é uma coisa super brasileira.
Nosso gosto por edições de luxo, edições comemorativas, edições temáticas e todas as edições que saem do tradicional capa-de-papel-em-volta-de-folhas-de-papel é algo que não existe na gringa. Nós temos orgulho de ter belos livros expostos em casa. E, ao mesmo tempo em que isso traz a deliciosa atmosfera etérea da grande biblioteca mágica do mundo penetrando com suas raízes em todos os lares, também é o resquício de um passado bem palpável que deveria ser abandonado: o livro como um objeto que representa o elitismo. Vejam bem, não estou dizendo que quem tem livros expostos em casa é elitista (eu mesma me orgulho muito da minha estante fofíssima com meus livros e bonequinhos). Mas existiu um período (infelizmente o tempo verbal que usei aqui é anacrônico) em que pouquíssimas pessoas podiam se dar o luxo de ter livros, então sua exposição realmente equivalia a mostrar obras de arte raras.
A ligação que nós temos com os livros é algo incrível. O livro-objeto encanta até quem não tem gosto pela leitura. E isso se confirma por dados estatísticos: quando os livros digitais surgiram, declarou-se a morte da indústria do livro tradicional. Hoje, algo como um quarto de século depois da popularização dos aparelhos de leitura dedicados ao formato dos ebooks, a porcentagem de venda desse tipo de livro é muito inferior à dos livros físicos. Inclusive, o mercado dos digilivros já está comendo poeira dos audiolivros.
Vamos encher nossas casas de livros. Edições chiques, simples, raras, de apego emocional. E não vamos esquecer que eles precisam ser abertos vez ou outra pra que a história que mora ali dentro ganhe vida. Também devemos permitir que alguns possam conhecer novas casas e habitar novas estantes. Sei que pode ser um exercício de desapego árduo, mas garanto que a satisfação de saber que as histórias estão ganhando o mundo vai decorar seu espírito de um jeito que nem a mais formosa estante pode superar.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 11/01/26

