A criança leitora é a melhor pessoa leitora que poderíamos sonhar. Não canso de expressar o quanto isso é uma verdade absoluta. As crianças são passageiras inerentes do faz de conta, sempre dispostas a receber as possibilidades infinitas que uma história pode oferecer — uma boa história. Não se engane com o absurdo de que qualquer coisa servirá pra entreter os pequenos. Justamente por serem leitores sem os filtros da adultice é que têm um senso de julgamento livre pra decidir sem enrolação se uma história é boa ou não.
Escrever pra crianças é uma das áreas mais bonitas da carreira de pessoa escritora — e eu estou puxando sem pudor algum a sardinha pro meu lado. E também é uma das áreas com mais mitos que precisam ser esclarecidos (com urgência). É aqui que perdemos muitos habitantes da Terra dos Livros antes mesmo de dar uma chance de que considerem entrar com o pedido de cidadania. E essas perdas se dão por menosprezar a qualidade das histórias que oferecemos às crianças.
As crianças não sabem menos. Elas sabem outras coisas. E o enfrentamento do desconhecido é inerente à jornada existencial de todas as pessoas em todas as idades. Ser condescendente em uma história que foi escrita pra crianças é ser, no mínimo, egoísta e, na realidade, babaca pra caralho. As crianças não precisam ser educadas nos nossos livros. Pasmem, mas já existem lugares que fazem isso. Quer perder o pequeno leitor nas primeiras páginas? É só encher sua história de didatismo. As crianças vão odiar.
A leitura nos distrai. Nos apresenta outras possibilidades. Outros mundos, outras ações. Permite supor a existência do mundo invertido sem destruir o mundo que conhecemos. É a exploração de outras maneiras, não a criação de novos desdobramentos. É onde a imaginação pode fluir sem riscos. E quem priva as crianças dessas experiências nos livros está apenas escrevendo péssimas histórias. As crianças não precisam de paladinos dos bons costumes (seja lá o que isso signifique). Elas precisam de arautos do fantástico.
Temos que deixar as portas pra Feéria escancaradas. Os pequenos sabem muito bem como se virar lá. Muito mais do que nós.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 16/02/26

