Não precisamos recriar toda a nossa obra cada vez que mudamos
Precisei reenviar pra editora um material que escrevi há quase um ano. E surgiu o terrível dilema de quem escreve: releio ou não? Eu já tinha dado como finalizado e enviado, então deveria ser um material fechado. Mas será que o universo estava me dando outra chance?
Acabei relendo. E fiquei completamente satisfeita com a Daniela do passado. A garota arrasou. Não senti vontade de mudar uma vírgula de lugar. Mas nem todos os meus textos antigos me dão esse momento de auto-tapinhas nas costas. Alguns eu releio e tenho vontade de mudar. Já estão publicados, então não tem muito o que fazer. E sou grata por isso porque me impede de passar o resto da vida lapidando um único texto que nunca vai estar perfeito.
A evolução é uma constante. Principalmente quando se escreve profissionalmente, já que não podemos parar de aprender — e aqui o não poder parar se refere tanto à necessidade de aperfeiçoamento quanto à incapacidade de não absorver tudo o que chega até nós. A cada nova obra, estaremos diferentes. Melhores, se você preferir essa escala de medição subjetiva e potencialmente peçonhenta. Mas precisamos aprender a respeitar as escritoras que éramos nos textos das publicações passadas. Mais do que respeitar, eu ouso dizer. Precisamos honrar a nossa trajetória.
Pode apostar que eu entendo o impulso de mudar e mudar e mudar, principalmente em quem trabalha com contos — é muito mais viável do que fazer isso em romances, se ainda te resta um mínimo de sanidade. Mas se você acreditou que aquilo estava pronto pra ser publicado, acredite também que você sabia o que estava fazendo. Naquele momento, essa foi a decisão certa. Não gaste sua energia criativa desafiando a autoridade que você teve sobre o seu trabalho.
A sua narrativa como escritora continua sendo criada e o que está no passado faz parte dela, mesmo que talvez agora você pudesse fazer diferente. Faça diferente, mas faça no agora. Crie coisas novas que refletem quem você é agora. E deixe o que foi escrito permanecer vivo e como foi feito pra ser. Olhe com orgulho pra sua jornada. Pare de se envergonhar do que te trouxe até aqui.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 21/01/26

