A literatura e o poder de ser tudo o que se consegue imaginar

Existe um período sombrio durante a nossa formação como indivíduos em que nos deparamos com a criatura mais temida que nos acompanhará pelo resto da vida — o outro. É quando nos damos conta dessa entidade observadora que a maioria das alegrias de viver a nossa pequena realidade, construída com partes coletadas de sonhos e esperanças, acabam se transformando em pedidos de desculpas gaguejados e constrangidos.

Com o tempo, muitos de nós conseguem resgatar alguns fragmentos do primeiro mundo interior fantástico que contruímos, mesmo que fiquem guardados em um baú mágico invisível pra todo o resto das pessoas. Alguns outros, arrisco dizer que em grande minoria, têm a magia necessária pra misturar Fantasia ao mundo real e encontrar o equilíbrio entre o que poderia ser e o que é. Eu gosto de acreditar que faço parte dessa Ordem da Magia Resgatada.

Quando escrevemos pra crianças, podemos ser agentes facilitadores do resgate da magia no futuro. Quando despertamos a parte da mente que habita Fantasia, criamos um vínculo inquebrável que pode ser acessado em qualquer momento da vida, inclusive da vida pós-outro. Esse é o nosso poder como contadores de histórias. E é um poder e tanto.

Mas como fazer isso? Infelizmente não existe um abracadabra que resolva essa questão pra todos. Posso falar por mim, e talvez isso sirva de instrução no grimório de alguns escritores: escrevo pra eu-criança. Eu conheço minhas alegrias e medos de quando fazia parte do universo dos pequenos (se formos bem honestos com nós mesmos, muitas dessas alegrias e medos ainda nos acompanham camuflados pelos tormentos da vida adulta). E, com esse conhecimento, também sei o que fez e o que teria feito diferença de encontrar quando eu vagava por Fantasia.

E aqui está um verbo-chave da nossa missão como mestres dos magos: vagar. Talvez possamos ajudar muitas crianças a se aventurar em Fantasia e encontrar o que buscam e o que não sabiam que poderiam ter, em vez de perder tesouros inestimáveis por percorrer a esmo os caminhos incríveis que se abrem junto com um livro.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 23/02/26