Essa frase foi dita em uma entrevista pela minha artista preferida, a Germana Viana. E me impactou de uma forma tão profunda que eu até tatuei. Sério. Ela estava falando sobre o ato de criar. Que, em resumo, é sentar a bunda na cadeira e fazer o que precisa ser feito.

O sonho de toda pessoa criativa, principalmente quem precisa ser criative pra viver, é que as ideias surjam como sopros divinos com som de anjos cantando ao fundo. Talvez isso até aconteça pra algumas pessoas preferidas de deus por aí, mas eu apostaria em uma estatística bem baixa. Pra maioria de nós, as ideias tem que ser arrancadas do cérebro. Não precisa ser um processo doloroso, não me entenda mal. Mas precisa ser um processo ativo.

Se você trabalha com criação e precisa trazer ao mundo ideias novas todos os dias úteis das 8h às 18h, sabe o que eu quero dizer com cérebro de sacola — quando o cérebro está tão esgotado que parece que está enrolado em uma sacola plástica que faz tudo parecer estranho e distante. Ou cérebro formigando, quando você até tenta pensar mas sente o cérebro como um membro que não responde como deveria e só faz alguns movimentos espasmódicos esquisitos. E você precisa continuar porque é o seu trabalho. Então não acredite em inspirações.

A criatividade deve ser criada como uma coisinha especial e cheia de quereres. Só assim você vai conseguir formar uma relação de parceria, em que ela responde quando você chama. Essa é uma relação muito íntima de cada pessoa com sua coisinha-criatividade, mas algumas regras gerais podem funcionar pra todes, como ler muito se você escreve. É preciso fornecer material pra ser transformado no que você precisa. Muito material pra virar um pouco de criação. Mas é assim que funciona, afinal. As grandes ideias não surgem, elas são construídas.

Não se engane: a musa inspiradora é uma babaca.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 28/10/25