Até a alma escritora mais livre ainda tem, mesmo que lá no submundo perdido do subconsciente abissal, alguns filtros inerentes à nossa construção como seres dentro de uma sociedade cheia de questões. São tantas censuras introjetadas desde que abrimos os olhos no mundo que se torna inescapável adentrar o território da autocensura na nossa escrita.
Esse conceito realmente existe, não está no campo dos danielismos. Por mais que a escrita seja um exercício de libertação, as pequenas e quase invisíveis amarras dos receios que repousam debaixo do nosso tapete do imaginário ainda puxam nossos dedos pra longe do teclado quando exploramos determinados temas que ou nos são caros ou nos são temíveis.
E aqui eu não tenho uma grande sugestão pra fugir dos monstrinhos podadores de ideias. São criaturinhas muito únicas em suas peculiaridades sufocantes. Cada bioma-mental tem sua própria biodiversidade que responde apenas ao ambiente onde se desenvolveu — são raríssimos os casos registrados de transferência eficaz de uma criatura censora através de consciências separadas.
Escrever é desbravar o território selvagem de nós mesmas. E a melhor maneira de fazer isso é entrar na floresta de quem somos como observadoras gentis. Se nos invadirmos como desbravadoras impiedosas, podemos até coletar um número considerável de espécimes pra criar um modelo ecológico raso, mas destruiremos a base que mantém o nosso planeta criativo vivo — e isso inclui os organismos responsáveis pelas apoptoses de ideias.
originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 09/02/26

