Era uma vez um livro que os adultos decidiram que eram muito adultos pra continuar lendo. E o colocaram em uma caixa no sótão, junto com os móveis que eles decidiram que eram muito adultos pra continuar tendo. Um dia, chegou uma criança. E essa criança ganhou um quarto com os móveis que os adultos não se importavam que ela estragasse. E, junto com esses móveis, veio um livro, que eles também não se importavam se acabasse riscado ou rasgado ou atirado pela janela.

Repita essa história milhares de vezes, em milhares de casas, com milhares de crianças. Foi assim que os contos da fadas acabaram virando histórias infantis. Foram livros que se tornaram forasteiros no mundo da gente grande pra entrarem como espólio nas terras ainda não desbravadas da infância.

[aqui estou considerando apenas esse movimento sociológico de marcar a literatura com um muro que divide adultos e crianças não como leitores com necessidades diferentes mas como consumidores mais ou menos capazes — tivemos outros fatores com sua parcela de contribuição, como a suavização das histórias originais em compêndios que vivem até hoje]

E, com essa demarcação literária que começou como uma faxina de fim de ano, as histórias de Feéria foram deixadas apenas pra quem tem uma capacidade inerente de suspenção da descrença (ou, como eu prefiro chamar, de embarcar no faz de conta): os pequenos. Pequenos em tamanho, não em valentia pra viver de coração aberto todas as aventuras desse mundo mágico. Tudo bem, vou ser justa, também existem alguns adultos que não permitiram ser jogados pra fora das páginas de Fantasia. E, a vocês, eu faço um pedido: não vamos permitir que essas crianças acreditem que precisam abandonar as visitas ao fantástico quando crescerem.

Acredito em uma história em que olhos brilhantes de admiração escutam contos de fadas lidos também por olhos brilhantes de admiração. Onde quem transmite a magia não o faz como um autômato porque alguém disse que é importante ler pra crianças, mas acredita em cada palavra que compartilha pelo tempo em que experienciam aquele livro juntos. E que, pra cada isso é verdade? sussurrado com uma vozinha sonolenta, uma fada nasce.

originalmente publicado na Newsletter Criando Ornitorrincos em 24/01/26